Coisas dos dias

A semana foi um tirinho. Vai, volta. Anda, acorda, reúne. Tão sem história mas ao mesmo tempo com tantas histórias dentro. Gente. Como eu gosto!

WIP

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Para mim, uma casa é, por definição, um work in progress. Não importa se sempre vivemos no mesmo lugar ou se, como é o meu caso, me farto de andar com a mobília às costas. Durante anos, foi o montar. Encontrar a mobília que gostava. Depois vieram os quadros, esculturas, cores.
Quando mudo de casa, desempacoto logo. Tiro, arrumo, tento encontrar um lugar. Mas sei que há coisas que ficam poisadas à espera do lugar certo. As cortinas.... Não sei se esta casa precisa.... Os quadros... pois... não sei qual a parede certa para este.
E depois, de vez em quando, a casa dá uns soluços. Olhas-se e percebe-se. Cansamo-nos daquele ponto de luz que ainda não tem candeeiro. E a casa avança. Muda mais um bocadinho. Mexe. Torna-se mais casa.
Hoje foi assim. As minhas esculturas favoritas têm finalmente um lugar onde as posso apreciar devidamente. Mais uma peça que encaixa.

Até que enfim!

melech mechaya
Nos tempos de faculdade, havia uma coisa que todos os meus amigos odiavam: estar ao meu lado durante uma serenata. Não é defeito, é feitio, mas depois de anos e anos a ouvir tudo o que tinha sido gravado até ao final da década de 80 em fado de Coimbra, depois de conviver com fadistas anos a fio, e de tocar, e ter aprendido muito de fado, é natural que durante uma serenata eu comente.... Hum... esta introdução não fica grande espingarda neste fado.... que viola aborrecido... eh pá, o cantor tem de controlar melhor o ar.... oh amigo, duas notas ao lado seguidas??? Pois, digamos que aquilo tirava um bocado da magia das capas negras e das vozes a soar na noite.
Mas é superior às minhas forças. Adoro escalpelizar um concerto. Ouço o conjunto mas vou dissecando cada instrumento. Os dedos, as mãos, a atenção. Ouço cada um até descobrir qual o músico que mais me encanta, qual o pedaço de música que me sabe melhor e vou para esse mundo. Continua a saber-me bem ir comentando estes detalhes com quem está ao lado. E continua a ser irritante para a maioria das pessoas :). Até ontem! Ontem fui a um concerto com quem escalpeliza o que está a ouvir ainda mais que eu. Um ouvido apurado com una leitura muito interessante! E por isso, pela primeira vez, escalpelizar a música não foi um monólogo! O contrabaixo é excelente.. Eu gosto do viola quando ele tem a oportunidade de fazer coisas de jeito porque geralmente está só a fazer o enchimento de fundo. A melodia do violino é interessante. Pois, dava jeito é que o clarinete deixasse o violino falar. Eh pá, tás a ouvir o contrabaixo? Que coisa boa! Deve ter formação de jazz..... 
Até que enfim que encontro alguém tão irritante como eu :P

Flores e dias bons

Na parede

Há dias que acordam com expectativas boas no ar. Cheira a conversas e concertos. Sol e amigos. Impossível não sair e voltar com braçadas de flores que se espalham pela casa e tornam tudo ainda melhor.

Home

Mais fotos, mais memórias e mais gente na parede.

Para mim, casa é história. A minha história. Aprendi que posso estar em casa em qualquer lugar, desde que tenha comigo a minha história. Hoje coloquei mais fotos na parede das viagens. Mais lugares, mais gente, mais um bocadinho de mim.

O outro lado da medalha de recarregar baterias

Foi um jantar delicioso acompanhado com um tinto delicioso. Pois, teoricamente nada de errado. Acontece que ultimamente tenho andado verdadeiramente a faltar a este tipo de treinos, e o resultado, apesar de estar bem dentro da legalidade alcoólica, foi uma noite mal dormida. Irriquieta. Com o coração a bater forte de mais. Ou seja, ando a faltar aos treinos, está-se mesmo a ver.
Ou não. Ou simplesmente já não tenho nem 20 nem 30. Se calhar, chegou a altura de começar a ter mais conta e medida nalgumas coisas. Se calhar aquela noite mal dormida foi o que eu precisava para cortar com algumas coisas que sei que fazem mal, reduzir outras a mínimos olímpicos e, acima de tudo, acrescentar outras. Tipo mais exercício físico. Algo que tonifique. Porque a verdade é que horas no sofá agarrada às agulhas não conta como exercício. Infelizmente. Aquilo devia ser uma actividade de elevado desgaste de calorias. Mas não é.
Em resumo: procura-se local para fazer yoga, não demasiado esotérico, em que se comprem packs de aulas e sem fidelizações. Quem conhecer, que seja um querido e me avise! A ver se descubro um conjunto de lugares para ver o que me agrada mais....

Carregar baterias

Quando estou cansada ou triste, tenho tendência a fechar-me sobre mim. Ficar em casa enrolada no sofá. No silêncio ou no barulho que eu escolho.
Mas também é verdade que cada vez mais sei que essa não é a solução. A solução para carregar as baterias é sair, falar, estar com amigos, rir. Hoje foi mais um dia desses. Um jantar marcado á última hora. Com velhos amigos de proveniências diferentes mas interesses comuns. Uns pratos de sushi mais tarde, chego a casa com muito mais energia e muito mais vontade de amanhã sair da cama e sorrir.
Está na hora de voltar a reabrir a sério a época das hostilidades cá por casa. Várias pessoas à mesa, conversas paralelas por todo o lado, pratos empilhados algures na bancada da cozinha ao final da noite. Ai esta, está!

As coisas que não vemos

Há vidas na cidade que não nos damos ao trabalho de ver. Não queremos ver. Eu não vejo.
E há gente que ajuda. Que sai para o frio da noite para ajudar.
Ontem fui ter com um amigo dos que ajuda. Santa Apolónia à noite por estes dias é um lugar frio. Agasalha-te se cá vieres ter. E eu fui. Para ver e perceber. E eu, que tantas vezes cheguei áquela estação à noite, vi pela primeira vez a quantidade de sem-abrigo que anda por ali à noite. Uns mais "óbvios" que outros. Uns sóbrios outros nem por isso. Alguns formam famílias e outros estão por ali sozinhos.
A carrinha da câmara chegou. Alguns entraram para passar a noite num centro de acolhimento. Outros ficaram por ali.
Caminhei para o carro. Liguei o aquecimento para tentar afastar a humidade que se tinha entranhado nos ossos. Mas há coisas que entranharam. Eu dizia que quando estive em Marrocos aprendi a valorizar o ter nascido do lado certo do Mediterrâneo mas a verdade é que algo semelhante se aprende aqui. Se olharmos.

Porque é mesmo assim

Passo a última noite do ano com o coração apertado a pensar na família. Há doenças que nos vão comendo devagar, devagarinho mas que avançam sem parar. Ao mesmo tempo, o meu coração está grato por todos os que estão lá, no hospital, à espera que as coisas melhorem. E estou também grata aos que hoje foram sabendo e dizendo "manda um sms quando tiveres novidades". É mesmo assim. Uma hora estamos a rir e na seguinte a segurar o coração. E amanhã vamos rir de novo! Porque o tempo é um contínuo, tudo se resolve, segue o seu curso mas amanhã, agora, só háuma coisa a fazer: continuar a lutar e a construir a felicidade todos os dias. Uns dias é mais fácil. Noutros mais difícil. Mas só há um caminho: para a frente. 
Bom 2015!

2014

Se 2013 foi um ano duro e muito difícil, talvez por isso mesmo 2014 tenha sido muito melhor! Acho que foi bom em absoluto mas, por comparação com 2013, foi excelente!
Fiz coisas que gostei no trabalho. A casa onde moro foi um porto de abrigo bonito e sorridente onde me sinto bem e onde sou feliz!
Desta vez, tinha forças para sair ao fim-de-semana. Para ver museus, para passear, para respirar. E foi o que fiz, muitas vezes. E ficaram-me nos olhos imagens de coisas boas, bonitas, que vi aí.
Foi um ano em que houve jantares em casa. Prolongados como se quer. Até alguém olhar para o relógio e dizer "Porra, amanhã é dia de trabalho!" e lá chegava tudo, no dia seguinte, a um qualquer local, com olheiras profundas e o sorriso das conversas da véspera.
Foi o ano dos amigos do costume. Das festas dos 40 anos que afinal de terríveis não têm nada mas que trazem, como diz uma amiga, uma serenidade diferente. Ainda preciso que acabe de chegar o resto da serenidade que me toca, mas alguma já a sinto. A relação de valor entre as coisas mudou. Para melhor, creio eu.
Foi também o ano de gente nova. Gente que andava por aí, nas cercanias da minha vida, mas só este ano vi e ouvi verdadeiramente. E gente de outros universos, que apareceu tipo meteorito mas, felizmente, não se desintegrou na atmosfera!
Foi também o ano das portas abertas. Da oportunidade de lutar. De fazer como eu achava que devia ser feito. De tentar crescer e melhorar. E, melhor que tudo, foi o ano em que acho que consegui isso mesmo!
O ano em que descobri Lisboa e gostei verdadeiramente de fazer parte da cidade! O ano em que percebi que o Porto já não é a minha cidade. Luanda é algo que já olho com a indiferença de quem conhece mas não mora lá embora não a tema.
Foi um ano bom. Que me pôs suficientemente tranquila para saber que, até pode haver anos maus, mas eu consigo dar a volta por cima. 2015 será diferente. Seguramente. Se calhar muito diferente, quem sabe? Mas 2014 será sempre um ano a recordar de sorriso nos lábios! Porque esteve cheio de coisas e gentes boas! E isso, é sempre o que faz o ano.
Bem haja aos que me acompanharam nesta viagem. Vamos continuar a rir e a sorrir em 2015?

Dias de sol

Dias bonitos de sol em Lisboa!
Dias de bailados lindos e que provocam um sorriso contente que dura horas.
Dias de horas de conversa perdida com a família que não é de sangue mas é como se fosse. 
Dias de recomeços e renovações. 
Dias de concertos e passeios pela cidade. 
Dias bons!

Eu e o meu frigorífico

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Ok, a estas horas vocês estão a pensar ela vai fazer um post sobre um frigorífico? A miúda passou-se!
Pois. É verdade. Ou talvez não.
Hoje dei conta que o meu frigorífico sofre as consequências directas do meu estado mental. Levantei-me, abri-o para tirar o pequeno-almoço e depois lembrei-me. Pois, o fiambre e a manteiga acabaram há quase uma semana. Queijo? Nope. Porra, pois, eu ando a torradas com doce ou cereais há vários dias. Irra! Que irritação!
E depois pensei... Pois, as últimas semanas foram eléctricas. Vai, vem. Trabalho. Outras preocupações. Coisas novas na vida. Saídas e cafés e jantares. E quanto mais cansada estou, mais me esforço por avançar. Seguir sem parar.
Resultado? Um frigorífico com prateleiras quase vazias, onde se passa a notar muito que a de baixo é o lugar da água tónica e das várias garrafas de várias coisas que estão sempre lá à espera dos amigos. As gavetas dos legumes parecem uma zona de guerra. Legumes com ar triste e abandonado que há muito deviam ter ido para o lixo porque não foram cozinhados. No congelador, uns sacos de não sei o quê nadam nas gavetas vazias. Não há doses de estufados para levar para o escritório.
Mas de vez em quando, as coisas desaceleram! O dia nasceu solarengo! A pedir uma visita ao mercado e ao talho da esquina. As bancas cheias de legumes e frutas frescas com ar feliz! Escolher, cheirar, imaginar o que me vou dar ao prazer de cozinhar. Dentro do género, desacelerar. Ter tempo para ir e saborear as coisas com mais calma. Pensar antes de abrir a boca. E, se calhar, está na hora de oferecer um jantar sorridente e feliz aos amigos que me aturaram nestas últimas duas ou três semanas. Não foram fáceis e eles levaram por tabela. Sorry friends!

A descobrir They're Heading West

Porque sim. Porque o mano mandou a lista de concertos. Porque a sonoridade é conhecida mas igualmente deliciosa. E lá vou eu ao concerto.
Obrigada mano!

P.S. Juro que tentei meter aqui o vídeo mas o youtube, o blogger e a net do comboio estão a conspirar contra vocês. Azar, vão cuscuvilhar!

Para memória futura

Hoje faleceu um dos fundadores da casa.
Tive o privilégio de entrar quando ele ainda estava activo, com muito sentido de humor, e acima de tudo, tive a sorte de lidar com ele e aprender com ele. E há histórias que não esqueço. E não quero esquecer.
Como aquele dia, logo no início, estagiária minúscula, em que sou levada à sua presença para o teste de geologia. Entrega-me uma pedra. Roxa. Com cristais bem desenvolvidos e bonitos. Pode cheiras, lamber, testar. Olhei para a pedra. Lamber? Não me parece. Cheirar? Bem tentei. As minhas aulas de geologia tinham sido 5 anos antes e pedrinhas e minerais nunca foi a minha praia. Chumbei. Claro. Eu e toda a gente. Porque a pedra era cangando de vinho cristalizado. Baixei as orelhas. Devia ter lambido.
Ou o dia em que chegou ao pé de mim e disse Sandra, estou em limpezas. Se não quiser ficar com eles, vai tudo para o lixo. E assim me tornei a herdeira de livros sobre estaleiros, rendimento de obras e, pérola das pérolas, uma cópia do Tratado de Mecânica dos Solos do Kacot-Kerisel.
Ou o dia em que tinha de escrever um procedimento sobre um dos grandes segredos das barragens. Ninguém tinha tempo para explicar e a resposta que recebi foi Vai falar com o Engº. E lá fui eu, orelhas baixas, envergonhada com a minha ignorância. Engº, pode explicar-me isto por favor? Tenho de escrever um procedimento. E ele sorriu, sacou das plantas da barragem, os circuitos marcados a azul e a vermelho e perdeu uma hora a explicar, pacientemente, à engenheirinha que não percebia nada, um dos grandes segredos. Com a maior das naturalidades. Sem dramas. Sem olhar para mim a pensar Engenheirinha burra que me saiu na rifa. Saí com um conhecimento mínimo mas que me permitiu avançar. E ainda hoje, para mim, aquele trabalho são as plantas dele, pintadas a vermelho e a azul Primeiro é preciso testar os circuitos. Começa-se com calda fina mas tem de ter os blocos à volta em carga com água. E é preciso ver se não há fugas nem contaminação....
Tenho a sorte de ter conhecido 2 dos fundadores da casa. Tenho a sorte de conhecer 2 fundadores da casa. O que me ensinaram é impagável. Há 17 anos que aprendo. E há muito para aprender. Ainda por cima, do alto daquele imenso conhecimento, são ambos tão humildes em tudo. No que sabem. No que dizem que não sabem. No que ensinam. Na candura dos comentários.
Tenho sorte, muita sorte, por os ter para sempre na minha vida!
Bem hajam!

Casa. Sangue. Família. Identidade

Casa. Sangue. Família. Identidade.
Todos temos um lugar especial. Pelo menos eu tenho. Um lugar onde o que sou, o que faço, onde vivo, como vivo, o que digo, o que sou, não conta. Porque, para dentro deste portão, conta o sangue. A famíla. O DNA. As histórias que correm no sangue. A terra. As árvores. Os tabuleiros de fruta. A passarada a cantar.
Aqui contam os afectos. O carinho. Aquilo a que, dê a vida as voltas que der, posso sempre voltar. E onde, seja eu que for, voltarei sempre a ser o que sou.

Fins de tarde

There's always the sun!

Nada como um bom passeio de fim de tarde, cheirar o mar que tanta falta de faz, ver as ondas brancas. Caminhar.

Lugar mágico. Ou talvez já não.

Este ano acabei por passar no Porto alguns fim‑de‑semana. A semana de trabalho acaba ou começa aqui e deu para ficar 2 dias.
O Porto continua a encantar-me. Continua a ser um lugar bonito. Mágico se quisermos.
Mas, e não me batam, já não é a mesma coisa. Já não é a minha casa. Já não é a minha cidade. É um lugar que conheço demasiado bem para ter apenas olhos de turista, mas que também já não é a cidade de todos os dias.
Ontem choveu e estava enevoado. O céu tinha uma tonalidade branca que fica mal nas fotografias. E dei por mim a pensar.... Porque raio isto não tem a luz de Lisboa?
É claro que tenho ligações aqui. É claro que amanhã podem dizer-me 'muda para o Porto' e eu venho. E será de novo a minha cidade. E Lisboa passará a ter a luz estranha. Mas hoje não é. É uma cidade que faz parte do meu passado e da minha história. Mas ao presente pertence apenas como local de trabalho, a vida é entre Campanhã e o escritório. Há os amigos, claro. Mas também há amigos em Luanda, na Suiça, na Dinamarca, no Djiboutji, em Hong Kong.....
Acho que no fundo, o que estou mesmo a dizer, é que nos últimos anos me habituei a viver o presente no sítio onde estou. A sentir-me em casa no local onde está a minha casa, a minha vida condensada entre 4 paredes. E se querem que vos diga, prefiro assim. Passei demasiado tempo a querer estar onde não estava. E isso é muito mais cansativo que mudar de cidade.