O apelo da terra

A terra

Sou miúda de cidade com raízes na aldeia. Muitas raízes. Parece que cada vez mais.
Ver terra abandonada custa-me um nadica mais cada dia. Ver silvas a crescer, doi-me.
Por isso mesmo.... Pedi uma poça de terra emprestada à minha comadre. Vou pagar para a limparem. Vou arranjar quem lá vá com um tractor lavrá-la. Provavelmente vou ter de pagar a alguém para ir semear milho. E cheira-me que vai ser a minha mãe a regá-lo. Pois, eu fico com a parte fácil, ter ideias. Mas neste momento, isso parece-me importante.

Coisas tristes que não deviam ser precisas

Estou a trabalhar numa nota técnica para uma obra em África. Nada de novo debaixo do sol, portanto.
O que é novo é que tenho de escrever sobre, entre outras coisas tristes, medidas a implementar para evitar tráfico de seres humanos.
E estou triste. Muito triste. Não sei se mais triste que irritada.

Dos amigos


A minha vida está cheia de memórias de amigos.
Hoje fui buscar a minha mala de primeiros socorros para tirar um penso rápido. E quando olhei para a mala, lembrei-me de quando ma ofereceram, do amigo que ma deu e das palavras que me disse. "Isto é um presente para pessoas especiais". Os anos passaram mas as palavras e o significado ficou. A gratidão pela amizade que, entre outras coisas, me manteve sã nos anos de Angola também.
Bem hajas amigo!

Para o mano mais fixe do mundo

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Isto de ter o melhor mano do mundo não é só receber presentes e atenção. De vez em quando, muito de vez em quando, o mano pede alguma coisa. 
Ele é como eu.... Viver da mala não o assusta. E tal como eu, ach que sacos plásticos na mala para guardar os sapatos e a roupa suja, é mau. Por isso, rendeu-se a uma coisa "de velhinhas": taleigos. E os reforços para os que já tinham, estão a caminho. 

Projectos para hoje

upload Tinha planos para hoje. Saíram furados.
Fiz planos novos.

Mauritânia #5

De cada vez que faço uma pausa, isto é o que vejo.
De cada vez que faço uma pausa, esta é a paisagem.

Mauritânia #4

Uma rua normal numa zona residencial
Ok, está na hora de escrever um post decente.
Nouakchott. A capital. A primeira coisa que me vem à cabeça é que tudo é relativo. Que no que toca a África, os meus padrões são vários e é impossível não fazer comparações. E por isso, acho a cidade mais limpa do que as de Angola. Sinto-me mais segura. Embora se calhar o que me vale é que já não devo valer muitos camelos. Mas continuo a ser uma carteira com pernas de alguma forma. Bom, na verdade como qualquer turista em qualquer lugar do mundo, mas enfim.
O calor aperta durante o dia, mas é um calor seco, opressivo. Um calor que se sente na pele e sinto-me a fritar. E dizem, o calor ainda não começou. Que agora é que vai começar a doer. Eu, que não sou miúda de calor, até me arrepio só com a ideia.
Não consigo convencer-me que estou numa capital. Falta-lhe a grandiosidade. Aqui, grandes, só os muros compridos das embaixadas. Não estranho os talhos ao ar livre com peças de cabrito penduradas e umas nuvens de moscas esvoaçantes quando alguém se mexe por perto. Não estranho o cheiro do mercado onde passei hoje. Não estranho os preços exorbitantes que me pedem pelos tecidos (de má qualidade, diga-se) sintéticos que vi por ali. Andei pelas lojas de artesanato com as regras do costume: nem sequer perguntar o preço a não ser que queira mesmo comprar. O pouco que comprei foi por um preço que eu acho justo, adequado à qualidade da caixa de madeira ou do cesto de roupa suja em vime para o meu colega.
Há esplanadas, mas esqueçam lá as bejecas. Por aqui, são ilegais. Quase que me apetece pôr um lenço na cabeça para passar mais despercebida.
A cidade é em esquadria e na zona onde circulo começo a orientar-me. Mas não foi fácil. Tudo tem um ar igual, entre o branco e o amarelado, com uns tons terra aqui e ali. Os muros sucedem-se uns aos outros.
As conchas. Omnipresentes. A falta de verde. Vai saber tão bem aterrar e pegar no carro rumo a casa, às árvores, ao verde.
Se conseguir ficar aqui a trabalhar? Claro que sim. Já aprendi que consigo isso em qualquer lugar, desde que tenha livros e música a coisas para entreter as mãos. Mas não me parece um lugar fácil. Falta o que fazer fora de portas. Não há-de ser fácil aparvalhar com uns copos de gin tónico como fazíamos em Luanda.
Mais um alfinete no meu mapa do mundo. Mas não um particularmente interessante. Saio daqui com imenso respeito por quem cá está a trabalhar, a viver, a lutar e a continuar a sorrir.

Mauritânia #3

Muro branco. Céu azul. E o arame farpado que eu acho desnecessário mas que protege o meu sono.

Detesto o arame farpado. Mas já percebi que nalgumas partes do mundo é mais ou menos standard.

Mauritânia #2

Linha de roupa a secar na Mauritânia
Linha de roupa a secar na base de vida. Cor, tecidos leves e fluidos. Começo a ter umas ideias sobre isto. Depois falamos.

Mauritânia #1

Um país onde apanhar conchas não é diversão de dias de praia não me parece normal.
Este país é desértico. Até onde o olhar vai, há areia. Com conchas. Muitas. Tantas que são usadas como agregado para betões e betuminosos. É o que há.
Mas não me parece normal. Apanhar conchas é suposto ser diversão de dia de praia. Aqui nem por isso.

Duas semanas. Uma mala

Pronto. Voltemos às malas. Às odiadas malas. Aquelas a que por mais que viaje, nunca me habituo. Hoje já há malas fáceis. Angola é fácil. Já conheço as empregadas das casas e sei que vai haver sempre roupa lavada. Agora vou à Mauritânia. Já complica. Primeiro é um país árabe. Logo evitem-se saias, mangas curtas. Levo um vestido que me vai até aos pés. Não sei onde vou ficar. Não conheço as empregadas. Mas na semana passada, alguém tinha uma camisa com um botão semi-derretido... Melhor levar roupa a mais. Não sei como são as casas. Não sei se a malta já instalou televisão por satélite. Ok, então vão as meias que estão nas agulhas, mais um novelo novo que a minha comadre escolheu, mais uns restos que pode ser que comece umas pãra mim às cores. Melhor levar uns novelo de linha de crochet que 15 dias a fazer meia à noite não me parece. 2 caixas de nespresso. É sempre um presente valorizado. Colares. Botas cor-de-rosa e uns sapatos de salto. Uma mulher tem de continuar a ser mulher mesmo quando a mala está cheia de calças de ganga e camisas brancas. Umas colunas portáteis. O disco externo com filmes. O caderno de encargos da obra já impresso. Um copo para andar com o meu chá. Não era má ideia levar umas caixas de barritas. A Nina. Uma a lente extra. Desta vez vou fotografar o gel no cabelo do piolho no pêlo do camelo. O meu melhor sorriso. A usar com extrema contenção e apenas para a Fiscalização. Mon mieux français. A certeza que mesmo só com um sms de vezem quando vou ter a pior conta de roaming da minha vida. Um lenço grande. Não, não me rendo à religião. Mas pode dar jeito no deserto.

Há muito tempo que não escrevia um post sobre irritačoes

Por isso mesmo este vai ser breve. Eu. Vou. Matar. Alguém. Ponto. Parágrafo.

Mais uma volta ao carrossel

Estou a preparar-me para ir passar duas semanas de trabalho à Mauritânia. Não me venham com a pergunta "Gostas?" quando eu regressar porque é uma pergunta a que odeio responder. É trabalho, tenho que ir, não importa se gosto ou não. Mas digo desde já que países árabes para mim não são fáceis. Não tem nada a ver com ser mulher, apenas a maneira de trabalhar e pensar é tão diferente da nossa que me exige um esforço monstro manter uma cara simpática e seguir e fazer e acontecer. Mas vou. E vou cumprir os objectivos. Sabem o que tem andado mesmo na minha cabeça? O que é que levo para as horas vagas? Não sei se hoje ainda não me vou dar ao trabalho de cortar uns tecidos para fazer lá mais uns hexágonos. Afinal, nunca há hexágonos a mais na minha vida.

Bom dia mundo!

Lá fora chove. E a única frase que me ocorre é "bom dia mundo!"


Acordei com o barulho da chuva e dos carros no asfalto molhado. Gosto da chuva, não há nada a fazer. Acho que vou ser a única pessoa a sorrir por este motivo no escritório.

Das memórias a ressurgir

Eu adoro música. Preciso de música. Há claramente estilos que ouço mais que outros e alguns que sou absolutamente incapaz de ouvir.
Curiosamente começo a perceber que fico normalmente com alguma alergia à música que mais comummente se ouve nos países onde morei. Gosto de algum flamengo mas tem de ser particularmente bom, sou alérgica ao ponto de ficar com o corpo cheio de borbulhas e a música marroquina, a não ser em circuntâncias especiais e de músicos extraordinários, é uma coisa que me irrita a um nível indescritível.
Quando, há milhões de anos atrás, trabalhei em Marrocos uns meses, o momento em que sabíamos que tínhamos de sair da discoteca era quando começavam as "marroquinices". E o Jardin d'Eau, só lá íamos porue tinha os melhores steak au poivre da cidade mas vínhamos de lá a precisar de uma cura de silêncio.
Hoje estou em trânsito por Casablanca. Nem vou sair do aeroporto. Mas não preciso. Os chofe e os chokram trouxeram memórias. A confusão e a falta de informação e o ter de andar tipo barata tonta até que alguém dê uma informação de jeito também têm algo de déjà vu. E a música aqui no lounge... a música não perdoa. Com jeitinho vou reconhecer as músicas de há uns anos atrás.

Um domingo produtivo

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Queria algo que começasse e acabasse umas horas depois. Instant gratification se quiserem. E estou muito contente com o resultado! Uns metros de linha, tecido africano, um botão, umas horas de paciência e sai um saco para ter na carteira. Há muitos por aí, eu sei. Mas este fui eu que fiz!

15 dias depois

E as minhas flores de abrunheiro abriram!

15 dias depois os meus galhos de abrunheiro floriram!

Coisas boas da vida

Amanhã vai ser "Dia de Gajas"! Coisa fantástica, acreditem. Vamos deixar criançada e maridos e cães e gatos em casa. Carro também. Vamos correr galerias, ver exposições e performances. Vamos ouvir música e beber cervejas em esplanadas. Vamos lembrar os dias do início da nossa amizade e a viagem a Barcelona, nem sei quantos anos atrás. Vamos rir. Dizer mal da vida. Dizer bem da vida. Vamos!

Cheiro ao fim-de-semana passado

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No fim-de-semana passado fui a casa. O meu tio podava abrunheiros, a minha mãe andava a plantar mirtilhos.
Por baixo dos abrunheiros acumulavam-se os ramos cortados. E de repente percebi que estavam cheios de botões minúsculos. Num deles havia umas flores brancas minúsculas. E eu não resisti a trazer uns ramos e colocá-los em jarras. Os botões crescem um nadica todos os dias. Estão mais verdes. E acho que um dia destes vou ter florinhas minúsculas por todos os lados.

Não há fotos mas há testemunhas!

Ontem havia amigas para jantar. Estas meninas são tão da casa que até lhes podia dar arroz com salsichas. Mas bolas.... A malta tem de aprender e testar coias novas...
Qual dos 50 livros de cozinha tem receitas de massa fresca? Abre um, outro. Todos diziam o mesmo: 100 gramas de farinha fina e um ovo. E múltiplos disto. Trabalhar a massa até incorporar bem e depois deixar repousar pelo menos 30 minutos no frigorifico. 
Tive de juntar um nadica de água. E quando a bola de massa foi para o frigorífico eu achava que ia precisar de um plano B. Passado um bocado voltei à carga. E alguma coisa boa tinha acontecido porque a massa estava elástica e lisa!
Esticá-la foi uma diversão. 3 mulheres à volta de uma máquina de massa. Roda, coloca, apanha, segura. Enfarinha. Passa de novo. Acho que está bom para cortar. 
Um panelão de água com sal a fercer mais tarde, uns legomes assados misturados no último minuto. E maravilha das maravilhas! Aquela massa fresca estava fantástica! Eu tinha conseguido! Não é preciso ser um génio para fazer massa!
Não me levem a mal, mas aquilo foi uma epifania!